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Afeto: base de uma vida sustentável
Por: ASCOM SINPRF-SP 12 de Fevereiro de 2020 em: Notícias em Destaque

Por Angelo Marion

Psicanalista e Policial Rodoviário Federal

www.angelopsicanalise.com

 

  Afeto, na visão leiga, um atributo feminino, ou masculino quando reconhecido por uma mulher, é uma palavra estranha em nossos dias. Entretanto, é a base da primeira relação quando nascemos e também base para uma vida emocionalmente sustentável, salvo se a mãe ou cuidadores não manifestam afeto ao recém-nascido ou o condiciona.

  Na visão psicanalítica, o afeto é expressão da libido e representante da pulsão. Desde já, é importante esclarecer que o termo libido, em Psicanálise, representa a expressão de vida, força de crescimento, ou, segundo Freud, num conceito mais amplo que o usual, é a energia primária que provém das pulsões de vida e de morte, e que assume a conotação genital apenas quando da maturidade da pessoa com a puberdade.

  Como a Psicanálise possui uma teoria muito ampla, convém explicar o que são pulsões de vida e de morte. Resumidamente, pulsão de vida é toda manifestação psíquica ou fisiológica direcionada ao desenvolvimento e à saúde; pulsão de morte já é direcionada à destruição (incluindo a autodestruição) e à doença.

  Também é de bom grado lembrar que esse texto tem por base a teoria Psicanalítica e relatos de casos clínicos, assim, não se pretende aqui apontar individualmente essa ou aquela conduta como neurótica. Quem percebe a queixa e o sofrimento é cada pessoa, cuja história é explorada nas sessões de Psicanálise, a partir de uma decisão própria.

  Bem, mas qual a importância do afeto? Toda. Está a influenciar nossa vida desde o nascimento, com o aconchego materno e a amamentação, e vai marcando nosso desenvolvimento como pessoa até a puberdade e a vida adulta. Isso, quando ocorre um desenvolvimento saudável, caso contrário, um adulto pode ficar reportando-se a épocas onde o afeto foi reprimido ou viciado.

  Agora, perceber e manifestar o afeto é ser sempre agradável e bonzinho? Não. O afeto não é sempre agradável e bonzinho.

  Estamos constantemente equilibrando nossas decisões entre as necessidades primárias e as regras de convivência, fazendo isso através do ego, figura predominantemente consciente do aparelho psíquico e, quando ocorre um desequilíbrio, é dito em Psicanálise que há uma neurose.

  Assim, a título de exemplo, quando um pai ou mãe repreende um filho, até mesmo fisicamente (duas palmadas nas nádegas, para evitar discussões não pertinentes), essa ação não deixa de ser agressiva. Então, uma repreensão física pode ser uma manifestação de afeto? Sim. Aparentemente é um comportamento igual em todos os casos, mas levando-se em conta a fonte dessa ação, podemos ter uma ação neurótica ou não. Essa ação pode ser tão danosa na formação do filho quanto o contrário, quer dizer, quando não há repreensão, chegando ao desprezo pelo filho.

  Para melhor esclarecer, vejamos um quadro comum, especialmente aos profissionais de segurança pública, que é o da prisão de alguém. Por motivos óbvios a captura e a imobilização são necessárias e legais, mas o que se busca perceber aqui é a relação do agente com essa ação e com a pessoa presa, ou seja, a relação afetiva do agente.

  Uns veem no ato da prisão uma agressão pura e gratuita, sentindo-se desagradados ao efetuar essa prática, chegando ao ponto de descuidarem da própria segurança diante da necessidade psíquica de não agredir uma pessoa com a colocação de algemas. São como fossem o pai ou mãe que ficam com remorso após repreenderem fisicamente um filho.

  Outros percebem esse ato de força como insuficientes se não houver a ação agressiva pessoal, ou seja, não basta imobilizar e algemar, há uma necessidade de impor sua parcela de agressão, chegando ao ponto de comprometerem-se disciplinar ou legalmente pela sua ação além do preconizado. São como se fossem o pai ou mãe que espancam ou castigam prolongadamente um filho.

  Em geral, essa dificuldade, das duas situações acima, em agir estritamente nos limites da técnica e da lei, tem origem em fatores emocionais inconscientes (se fossem conscientes, sendo básico, uma pessoa não arriscaria sua liberdade e carreira ou vida por uma agressão gratuita ou uma omissão operacional) relacionados à qualidade da repressão à sua agressividade manifestada em tempos anteriores, especialmente na infância, ou seja, relacionados a um trauma.

  Outros, ainda veem a prisão apenas como uso da força numa situação necessária, dentro do que se preconiza nas instruções de técnicas de abordagem e de defesa policial, sem envolvimento “afetivo”. É o que se espera de todo agente de segurança pública, mas nem sempre isso ocorre.

  Em 2019, publiquei nos grupos um artigo onde se aborda a atividade policial sob o prisma do princípio do prazer, indicando os prejuízos e riscos psíquicos a que estamos sujeitos em função da natureza da atividade policial. E desde já é importante esclarecer que ao efetuar uma prisão, exemplo utilizado acima, não há como esperar que o agente não sinta raiva ou mesmo ódio do preso, isso é o ideal. Mas é um avanço se, numa atitude profissional e consciente, com neurose leve ou sem neuroses, o agente limita o uso da força ao necessário à prisão segura. Em breve vou aprimorar o texto e compartilhar aqui.

  Por que falo que não sentir raiva ou ódio é o ideal? Por que sentindo raiva e ódio repetidamente o ego vai perdendo a capacidade de equilíbrio e adoece. Daí o policial doente deixa a família doente, colegas em risco, e todos sofrem.

  Em vista disso, o afeto é a base de uma vida emocionalmente saudável. Não é ser bonzinho, é ser equilibrado. Muitas pessoas perguntam como é compatível ser policial e ser psicanalista. Entender incompatível é um equívoco devido à rotulação das atividades. Ser policial não é sempre ser agressivo, e ser psicanalista não é ser sempre bonzinho. Ambas atividades encontram compatibilidade em atender pessoas que estejam numa situação de queixa ou vulneráveis por algum motivo, além de lidar com as pessoas em sua natureza mais profunda e muitas vezes não aceitas.

  Dessa forma, a qualidade da relação afetiva estabelecida, não só no dia a dia dos agentes de segurança pública, mas em todas as relações, sejam na família, nos amores, no clube ou no comércio, é fundamental para a saúde psíquica e emocional, contribuindo para uma qualidade de vida satisfatória e sustentável num mundo tão pouco humano. Por isso, conhecer-se a si mesmo é fundamental, conhecer-se por completo, incluindo os afetos e o que representam na sua vida.

  Fiquem bem!